De umha parte é essa descida do Estado espanhol através da história da economia-mundo europeia, desde o papel de frustrado pretendente a convertê-la num império-mundo no século XVI à condiçom de área periférica no século XIX, o que permite perceber a angústia de tantos e tantos ensaístas espanhóis ante a "decadência espanhola", ante o "problema espanhol".
De outra parte, só essa mesma descida permite compreender a causa profunda do conflito que defronta o Estado espanhol com a formaçom social basca, originando o "problema basco". Porque Arzalluz tem toda a razom quando, no artigo intitulado "o problema basco" que antes estudamos nestas páginas, menciona o ano 1839 com fito fundamental, como ponto de arranque do "problema basco".
Mas a sua exposiçom confinada nas coordenadas do jurídico-político, fai como os bikinis. Mostra muito mas oculta o importante. A raiz do "problema basco" é que Espanha tem que integrar a formaçom social basca no mercado espanhol e para isso tem que transladar as alfándegas para a costa e para isso tam que violentar o regime foral basco. E nom cede até que pode impor isso embora tenha que ser pola força das armas.
Certo. Mas a pergunta fundamental ao respeito é Por que tem que fazer isso Espanha no terceiro decénio do século XIX? Porque durante séculos (do XVI inclusive) o Estado espanhol nom sentiu tal compulsom para integrar o mercado basco no mercado espanhol.
Só umha análise andada no materialismo histórico e dialéctico, que recolha nom apenas a relaçom Espanha-Euskádi mas o quadro global que para essa relaçom supom o papel do Estado espanhol na economia-mundo europeia, no moderno sistema mundial, permite achar a resposta. Que se fai ainda mais evidente se se recolher nom só o fito de 1839, como também o de 1876, o ano em que Espanha, após a derrota basca na guerra carlista, leva a cabo a aboliçom dos Forors.
Porque o que acontece é que em Euskádi há ferro. Muito ferro. Muito fácil de explorar a céu aberto. Muito perto da Inglaterra (muito mais do que o sueco, por exemplo). Com umhas características que se farám especialmente importantes quando em 1856 se descubra o procedimento Bessemer que permite lograr pola primeira vez aço barato em massa a partir de um mineral de ferro pouco fosforado (como é precisamente o biscainho).
E acontece que os Foros proíbem a exploraçom de mineral de ferro basco. A lei XVII do título I do Foro de Biscaia começa desta forma: "Que nom se tire veia para reinos estranhos". A tarifa espanhola de 1849 rompia essa proibiçom foral e a tarifa podia-se aplicar a Biscaia porque depois da derrota de 1839 as alfándegas foram transladadas para a costa. Em 1850, saíam legalmente (antes houvera, é claro, contrabando) 2.670 toneladas de mineral de ferro basco para França.
Para abreviarmos: desde o princípio dos tempos até 1818 nom se extraíra mais que 20 milhons de toneladas de mineral de ferro em Biscaia. De 1818 a 1882 extraem-se 18 milhons. E só nos seguintes dez anos 44 milhons. Em 1888 e 1889, saía do território do Estado espanhol noventa por cento do ferro que importava Inglaterra. E as três quartas partes saíam de Biscaia.
A exploraçom mineira do ferro basco vai jogar um papel excepcional na industrializaçom basca e no "problema basco". Mas isso vamo-lo ver ao fazermos umha rápida exposiçom de como fôrom os 150 anos últimos da luita de classes em Euskádi e como se imbrica essa luita com "o problema basco".
Para compreendermos o processo do século e meio último (desde 1833) da luita de classes em Euskádi é imprescindível Ter muito presente dous factos grossos que, de puro evidentes, som no entanto demasiado esquecidos polos que falam ou escrevem sobre o "problema basco". Esses dous factos som os que se seguem:
Margarita Ayestaran e eu próprio temos demonstrado, na nossa obra La crisis de CINDUEUSKADI (Crisis económica, social y política de una ciudad industrial llamada Euskadi) volumen I de Euskadi ¿dónde vas? ¿por qué? ( ECO S.A., Madrid, 1982), que 93,7% dos 2.556.297 habitantes das quatro províncias bascas (Alava, Guipúscoa, Navarra e Biscaia) em 1975 estava amontoado numha conurbaçom que "em mancha de óleo" englobava 269 concelhos em 8.486 quilómetros quadrados. Umha conurbaçom vertebrada pola prévia conurbaçom BlL-DON (BilboDonostia), soldada polo encontro da simultánea expansom das área metropolitanas bilbaína e donostiarra, e polas áreas metropolitanas de Vitória e de Pamplona. E baptizámo-la CINDUEUSKADI (a Cidade INDUstrial Euskádi) porque esses 269 concelhos tinham como mínimo 40 % da sua populaçom activa na indústria no caso de que nom fossem parte das áreas metropolitanas de Vitória ou Pamplona ou da conurbaçom BIL-DON.
Nom é possível perceber nada do "problema basco" nem do processo de 150 anos de luita de classes que o conduziu até a sua situaçom presentes se se prescindir do facto grosso de que os 518.455 habitantes que o Real Decreto de 30 de Novembro de 1833 atribuía às quatro províncias bascas se multiplicou por cinco e mutárom de rurais e agrários em urbanos e industriais. (16)
8. A fracassada tentativa de construir Espanha como umha naçom unitária a partir de 1833.